Lula fala sobre investigações contra filho, INSS, segurança, economia e planos para novo mandato

Lula fala sobre investigações contra filho, INSS, segurança, economia e planos para novo mandato

Política

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, participou de uma entrevista à Globo conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli.

Durante a conversa, o petista respondeu a questionamentos sobre as investigações envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, além de temas como segurança pública, fraudes no INSS, dívida pública, gastos do governo, Correios, educação e as propostas para um eventual quarto mandato.

Questionado sobre as investigações da Polícia Federal que apuram suspeitas de corrupção e tráfico de influência envolvendo Fábio Luís, Lula afirmou que não pretende interferir no trabalho das autoridades.

Segundo o presidente, caso o filho tenha cometido algum crime, deverá responder perante a Justiça como qualquer outro cidadão.

“Eu não sou do Ministério Público, eu não sou delegado, eu não sou juiz. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro”, afirmou.

Lula também declarou que não pretende afastar investigadores ou tomar qualquer medida para proteger o filho. Ao comentar as acusações, disse considerar que, até o momento, existem apenas “ilações” e afirmou acreditar na inocência de Lulinha.

O presidente comparou a situação às acusações que ele próprio enfrentou durante a Operação Lava Jato. Lula foi condenado e preso, mas as condenações posteriormente foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu a incompetência da Justiça Federal de Curitiba para julgar os processos e a parcialidade do então juiz Sergio Moro.

“Não me deixo impactar por ilações. Eu conheço muito e já fui vítima disso”, declarou.

Sobre as mensagens atribuídas à lobista Roberta Luchsinger, nas quais Lulinha é citado, Lula disse que o conteúdo das conversas, isoladamente, não comprovaria a existência de crime. Ele afirmou também não haver, até aquele momento, comprovação de transferência de dinheiro público ou de conversas entre o filho e ministros.

O presidente ainda criticou a atuação de seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, por manter relação com a lobista. Segundo as investigações mencionadas na entrevista, Roberta teria arcado com despesas pessoais de Marcola, incluindo boletos, parcelas de financiamento, faturas de cartão e joias.

Para Lula, a relação foi inadequada e contribuiu para gerar desconfiança sobre o funcionamento do Palácio do Planalto. Ao falar sobre Roberta Luchsinger, o presidente afirmou que não a conhece e negou ter conversado com ela ou oferecido um cargo no governo.

A declaração, porém, foi confrontada por uma checagem, que identificou fotos e um vídeo nos quais Roberta aparece ao lado de Lula. Também foram encontradas imagens dela com a primeira-dama Janja, Fernando Haddad, Márcio França e Geraldo Alckmin.

Combate ao crime organizado

Na área de segurança pública, Lula afirmou que pretende recuperar para a população áreas dominadas por organizações criminosas caso seja reeleito.

O presidente disse que pretende combater as facções não apenas nas áreas onde atuam, mas também atingir seus integrantes que ocupam posições superiores dentro das organizações.

Lula afirmou ainda que o Brasil está preparado para cooperar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico. Segundo ele, o governo brasileiro apresentou ao presidente americano Donald Trump uma proposta por escrito sobre o tema.

O governo Trump classificou facções criminosas brasileiras como terroristas, medida criticada pelo governo Lula sob o argumento de que representaria uma interferência na soberania brasileira.

Ministério da Segurança Pública

Lula também defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública. De acordo com o presidente, a proposta deverá definir com maior clareza as responsabilidades da União, dos estados e dos municípios no combate à violência.

Ele afirmou que pretende negociar o texto com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

A criação de um Ministério da Segurança Pública, segundo Lula, ocorreria após a definição das atribuições de cada esfera de governo.

O candidato também foi questionado sobre os índices de violência na Bahia, estado governado pelo PT há duas décadas e que, segundo o dado apresentado durante a entrevista, possui cinco das dez cidades mais violentas do país.

Lula considerou injusta a responsabilização específica da Bahia e afirmou que nenhum governador brasileiro conseguiu solucionar completamente o problema da segurança pública.

Fraudes no INSS

Outro tema abordado foi o escândalo envolvendo descontos indevidos e desvios de recursos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Lula afirmou que aproximadamente R$ 3 bilhões foram ressarcidos e declarou que os aposentados prejudicados terão o dinheiro devolvido.

Segundo o presidente, o esquema teria sido investigado durante dois anos pela Controladoria-Geral da União (CGU) e pela Polícia Federal. Ele afirmou que a investigação não foi divulgada antes para evitar que os responsáveis fossem alertados.

Lula também comentou sua relação com Carlos Lupi, que deixou o Ministério da Previdência em meio ao escândalo. O presidente afirmou que Lupi não foi condenado e continua sendo um cidadão livre, justificando a manutenção da relação pessoal com o ex-ministro.

Fila do INSS

Sobre a fila de pedidos do INSS, Lula afirmou que pretende anunciar na próxima semana que a espera foi reduzida ao nível considerado normal.

Segundo ele, cerca de 251 mil pessoas permaneceriam aguardando por um período de até 45 dias.

O presidente afirmou que a fila havia chegado a aproximadamente 3 milhões de pessoas e atribuiu parte dos problemas encontrados na Previdência à gestão anterior.

Caso Master e Jaques Wagner

Lula também foi questionado sobre o senador Jaques Wagner (PT), investigado no contexto do caso envolvendo o Banco Master e que conta com o apoio do presidente em sua tentativa de reeleição ao Senado.

O presidente afirmou que a relação de Wagner com Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master, não seria suficiente para colocar em dúvida a integridade do senador.

Lula destacou que conhece Wagner há cerca de 45 anos, desde o período em que ambos estavam ligados ao movimento sindical, e disse confiar na honestidade do aliado.

Ao mesmo tempo, afirmou que, se Wagner tiver cometido algum desvio, deverá responder pelo eventual erro.

Dívida pública e situação fiscal

Na economia, Lula declarou que a dívida pública não é motivo de preocupação para ele. O presidente mencionou que a dívida brasileira ultrapassou 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e atribuiu parte do crescimento aos juros elevados e ao déficit fiscal.

Segundo Lula, a taxa de juros de 14% ao ano pesa sobre a dívida, enquanto o déficit fiscal de 2,8% teria sido herdado do governo anterior.

O presidente defendeu o crescimento econômico como uma das formas de melhorar a relação entre dívida e PIB. Para sustentar o argumento, citou países como Estados Unidos, Japão e Itália, que possuem níveis elevados de endividamento em relação ao tamanho de suas economias.

Lula afirmou ainda que pretende terminar o período com resultado fiscal positivo e prometeu buscar um superávit.

Gastos públicos e novas tecnologias

Questionado sobre a possibilidade de reduzir despesas obrigatórias, como defendido pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, Lula não especificou quais gastos seriam cortados.

O presidente afirmou, entretanto, que pretende promover uma agenda de investimentos voltada à tecnologia e à competitividade brasileira.

Entre as áreas citadas estão inteligência artificial, minerais críticos, terras raras e indústria de defesa.

Segundo Lula, a intenção é ampliar a capacidade do Brasil de produzir tecnologia e disputar mercados com países desenvolvidos.

Terras raras e minerais estratégicos

Lula também destacou o potencial brasileiro na exploração de minerais críticos e terras raras.

O presidente afirmou ter discutido o assunto com Davi Alcolumbre e defendeu a criação de regras para impedir que riquezas minerais brasileiras sejam simplesmente vendidas sem que o país desenvolva capacidade de processamento.

A proposta, segundo Lula, é utilizar esses recursos para estimular a produção nacional de baterias, chips, celulares e outros produtos de maior valor agregado.

Correios

A situação dos Correios também esteve entre os principais assuntos da entrevista.

A empresa acumula quatro anos consecutivos de prejuízo e enfrenta um déficit histórico estimado em R$ 15 bilhões.

Lula descartou a privatização e afirmou que pretende recuperar a estatal caso permaneça no governo.

O presidente reconheceu que os Correios perderam espaço diante das mudanças no setor de entregas e admitiu que a empresa não conseguiu acompanhar adequadamente a transformação do mercado.

Segundo Lula, a nova administração deverá realizar o enxugamento necessário e buscar alternativas para melhorar a prestação de serviços.

O presidente também admitiu a possibilidade de parcerias com empresas brasileiras ou estrangeiras.

Ele afirmou que, em um eventual novo mandato, pretende retirar os Correios da situação de déficit.

Educação

Na educação, Lula destacou iniciativas como a expansão das escolas de tempo integral, o pacto pela alfabetização na idade certa, o programa Pé-de-Meia e a ampliação das universidades e dos institutos federais.

O presidente afirmou ter orgulho de sua atuação na área e defendeu os resultados de estados como Ceará e Piauí na educação básica.

Ao ser questionado sobre dados segundo os quais seis em cada dez jovens que concluem o ensino médio público não apresentam conhecimentos básicos de matemática, Lula ressaltou que a educação básica é administrada pelos estados.

Ele citou o desempenho de estudantes cearenses e afirmou que uma parcela significativa dos aprovados no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) é proveniente do Ceará.

Planos para um eventual quarto mandato

Em seu plano de governo, o PT propõe a continuidade do arcabouço fiscal aprovado em 2023 e uma política econômica voltada ao crescimento, à redução das desigualdades, à valorização do trabalho, à responsabilidade fiscal e ambiental, à redução dos juros e ao controle da inflação.

O documento também prevê a manutenção e ampliação de programas sociais, a valorização do salário mínimo e medidas nas áreas de educação, saúde e transferência de renda.

Na área trabalhista, a candidatura defende o fim da escala 6×1 e a redução da jornada para 40 horas semanais, sem diminuição dos salários, conforme os termos aprovados pela Câmara.

Na segurança, o programa prevê a aprovação da PEC proposta pelo governo, a criação de um Ministério da Segurança Pública, maior integração entre União, estados e municípios, fortalecimento da inteligência e ampliação do uso de câmeras corporais.

O plano também propõe o fortalecimento das Forças Armadas e da indústria de defesa, além de investimentos em inovação e autonomia tecnológica.

Na política externa, Lula defende uma atuação mais independente do Brasil, o fortalecimento da integração sul-americana e do Mercosul, a ampliação das relações comerciais e a busca por novos mercados para produtos e serviços brasileiros.

Entrevistas com candidatos

A entrevista com Lula foi a quarta de uma série realizada pela Globo com os candidatos à Presidência mais bem posicionados na pesquisa de intenção de voto da Quaest divulgada em 14 de agosto.

Antes de Lula, foram entrevistados Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão).

A programação prevê ainda entrevistas com Flávio Bolsonaro (PL), nesta sexta-feira (28), e Augusto Cury (Avante), no sábado (29). O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro.

Trajetória política de Lula

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em Garanhuns (PE) e se mudou ainda criança para São Paulo com a mãe e os irmãos. Trabalhou como engraxate e office boy e posteriormente se formou como torneiro mecânico pelo Senai.

Em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, ganhou projeção como líder sindical ao comandar greves de metalúrgicos no final da década de 1970, durante a ditadura militar.

Em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores. Depois de quatro derrotas eleitorais para a Presidência, em 1989, 1994 e 1998, além da derrota para o governo de São Paulo em 1982, Lula foi eleito presidente em 2002 e reeleito em 2006.

Nos dois primeiros mandatos, seu governo teve como principais bandeiras o combate à pobreza e à desigualdade, com programas como Fome Zero, Bolsa Família, ProUni, Minha Casa, Minha Vida e PAC.

A trajetória também foi marcada pelo escândalo do Mensalão e, posteriormente, pela Operação Lava Jato.

Lula foi condenado em 2017 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá e ficou preso por 580 dias em Curitiba. Em 2021, o STF anulou as condenações relacionadas à Lava Jato, restabelecendo seus direitos políticos e permitindo sua candidatura.

Em 2022, Lula formou uma ampla aliança eleitoral contra Jair Bolsonaro e venceu a eleição presidencial, retornando ao Palácio do Planalto para um terceiro mandato.

Durante o atual governo, foram aprovadas medidas como a reforma tributária e a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. O Brasil também voltou a sair do Mapa da Fome, enquanto o governo enfrentou problemas como as fraudes no INSS, investigações envolvendo o filho do presidente, dificuldades no Congresso e conflitos com os Estados Unidos.

Em 2026, o PT oficializou novamente a candidatura de Lula à Presidência, com Geraldo Alckmin como vice. Caso seja eleito, Lula poderá chegar ao quarto mandato presidencial e completar 16 anos à frente do governo federal.

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