Relatório da PF revela conexões entre Vorcaro, Alexandre de Moraes e Banco Master

Relatório da PF revela conexões entre Vorcaro, Alexandre de Moraes e Banco Master

Política

Um relatório elaborado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero detalha uma série de mensagens, encontros, contratos e relações mantidas pelo empresário Daniel Bueno Vorcaro com pessoas ligadas a diferentes instituições de poder, entre elas o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República e a própria Polícia Federal.

O documento, denominado Informação de Polícia Judiciária de Análise (IPJ-A) nº 3298613/2026, foi produzido em 27 de agosto de 2026, a partir da análise do celular apreendido de Vorcaro durante o cumprimento de mandado de prisão e busca pessoal. O relatório foi elaborado por determinação do ministro André Mendonça, relator do caso no STF.

A PF ressalva, porém, que o trabalho não teve caráter de investigação específica contra magistrados ou integrantes do Ministério Público.

Segundo o próprio documento, os policiais se limitaram aos dados já existentes no material apreendido, sem realizar diligências destinadas à apuração de eventuais ilícitos cometidos por autoridades.

A corporação também afirma que a análise não é exaustiva e pode ser modificada conforme o avanço das investigações.

CELULAR DE VORCARO É A PRINCIPAL FONTE

Segundo a PF, a Operação Compliance Zero foi deflagrada em novembro de 2025 para investigar suspeitas de fraudes envolvendo a cessão de carteiras de crédito do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), em operações estimadas em aproximadamente R$ 12 bilhões.

Vorcaro, apontado no relatório como proprietário do Banco Master, teve o celular apreendido durante a operação. O aparelho passou por extração de dados utilizando ferramentas forenses, e o material foi posteriormente analisado pelos investigadores.

A metodologia empregada pela PF buscou cruzar registros do sistema operacional do aparelho com mensagens do WhatsApp. Os investigadores identificaram situações nas quais Vorcaro escrevia textos no aplicativo de notas, fazia capturas de tela e, segundos depois, enviava o conteúdo pelo WhatsApp.

Em uma das análises, os policiais identificaram cinco mensagens enviadas para um número que estava salvo no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O relatório afirma que os registros de sistema confirmam a sequência temporal entre a produção das notas e o envio das mensagens.

CONTATOS COM ALEXANDRE DE MORAES

O relatório dedica grande parte de sua análise às interações atribuídas a Alexandre de Moraes.

Segundo a PF, o contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, além de outros nomes como “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”, estava associado ao mesmo número de telefone. O contato teria sido compartilhado com Vorcaro por Fábio Faria em dezembro de 2023.

O documento também registra uma série de encontros que, segundo as mensagens analisadas, envolveriam Vorcaro e Moraes.

Em março de 2025, por exemplo, Vorcaro informou a pessoas próximas que estava com “Moraes”. Em determinado momento, afirmou que Hugo e Ciro haviam chegado para conversar com Alexandre. A PF registra que, pelo contexto das mensagens, o encontro pode ter se estendido por várias horas.

Também aparecem registros de outros encontros em abril e maio de 2025. Em uma conversa, Vorcaro afirma estar com “Alexandre”; em outra, diz estar com “Ciro e alexandre”.

CONTRATO DE R$ 3 MILHÕES MENSAIS

Um dos pontos de maior destaque do relatório envolve o escritório de advocacia de Viviane de Moraes.

A PF encontrou no celular de Vorcaro uma minuta de contrato entre o Banco Master e o escritório. Segundo o documento, os metadados da primeira versão apontam Guilherme Benazzi como autor e registram uma última modificação realizada por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, em 11 de janeiro de 2024.

A versão final do contrato, posteriormente analisada pelos investigadores, teria valor de R$ 3 milhões mensais. Os metadados registram novamente uma alteração feita pelo usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, desta vez em 15 de janeiro de 2024.

O contrato foi assinado por Daniel Vorcaro em 23 de janeiro de 2024.

O relatório também registra pagamentos ao escritório. Em 8 de fevereiro daquele ano, por exemplo, foi identificado um comprovante de transferência no valor de R$ 3.422.268,14 do Banco Master para a conta do escritório Barci de Moraes.

Meses depois, mensagens atribuídas a Vorcaro mostram cobranças relacionadas aos pagamentos. Em uma delas, o banqueiro determina que o pagamento não poderia atrasar e classifica o contrato como o “mais importante” naquele momento.

O relatório ainda aponta outros pagamentos no mesmo valor e registra orientações de Vorcaro relacionadas à forma de pagamento e ao acesso ao contrato.

SEGUNDO CONTRATO E ATIVOS MILIONÁRIOS

A investigação também encontrou um segundo contrato, datado de maio de 2025, firmado entre o escritório Barci de Moraes e a empresa Viking Participações.

O acordo envolvia ativos relacionados a empresas ligadas a Vorcaro. Entre os bens mencionados estavam uma aeronave Legacy 650 e um helicóptero EC 155 B1. A documentação analisada pela PF registra negociações sobre a transferência desses ativos e sobre a forma de remuneração do escritório.

Em outro trecho, a PF identificou uma fatura no valor de R$ 22.815.120,95 emitida pelo escritório em nome da Viking Participações.

O relatório também registra mensagens segundo as quais pessoas envolvidas na operação discutiam a utilização das aeronaves e mudanças na estrutura contratual.

RELAÇÕES COM PAULO GONET

A análise da PF também alcançou referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Os investigadores não encontraram no aparelho de Vorcaro um contato salvo diretamente como “Paulo Gonet” ou “Gonet”. No entanto, localizaram mensagens em outras conversas que poderiam se referir ao procurador-geral.

Em março de 2025, por exemplo, Ciro Soares enviou a Vorcaro uma fotografia em que aparecia ao lado de Gonet. Na sequência, segundo o relatório, foram registradas quatro chamadas entre Vorcaro e Ciro.

Também foram identificadas mensagens atribuídas a Gonet e encaminhadas a Vorcaro por Ciro. Em outro episódio, Ciro informou que Gonet teria confirmado sua ida a Londres e perguntou se o filho dele poderia viajar com o grupo. Vorcaro respondeu afirmativamente.

O documento, entretanto, não afirma que essas relações, isoladamente, constituam crime por parte de Gonet.

DIRETOR-GERAL DA PF TAMBÉM APARECE

O nome de Andrei Passos, diretor-geral da Polícia Federal, aparece em outra parte da análise.

Segundo o relatório, em abril de 2024, Fábio Faria encaminhou a Vorcaro uma mensagem na qual um interlocutor não identificado sugeria convidar o “DPF Andrei” para um evento. Na sequência, surgiram mensagens sobre contato com a Polícia Federal e sobre um convite formal.

Em seguida, Vorcaro teria informado a um contato salvo como “Marcio Conjur” que o “Ministro fez convite ao Andrei PF”. O relatório registra ainda mensagem atribuída a uma assistente do diretor-geral da PF questionando questões logísticas relacionadas à participação no evento em Londres. A resposta indicava que as despesas seriam custeadas pelos organizadores.

Em 2025, também aparecem novas tratativas para um convite formal ao diretor-geral da PF para outro evento em Londres.

EVENTO EM LONDRES

O relatório dedica uma seção específica aos eventos realizados em Londres.

As mensagens analisadas pela PF mostram Vorcaro e seus interlocutores tratando de convites, participantes, logística, veículos e hospedagem para autoridades.

Em uma das mensagens, Vorcaro afirma estar organizando um “evento super exclusivo” com Alexandre de Moraes em Londres. Também aparecem conversas sobre a participação de outros ministros do STF.

A investigação registra ainda mensagens nas quais Vorcaro repassa supostas orientações de Alexandre de Moraes sobre participantes e sobre a programação do evento.

Em julho de 2025, por exemplo, uma interlocutora afirma ter passado o dia com Viviane de Moraes e o ministro para fechar o programa do evento. O evento de Londres de 2025 acabou sendo cancelado.

AS TRÊS NOTAS QUE MOTIVARAM A ANÁLISE

Parte importante do relatório surgiu a partir de três notas encontradas no celular de Vorcaro e posteriormente enviadas para o contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Em uma delas, Vorcaro escreveu que havia recebido informações confidenciais de pessoas ligadas ao Banco Central sobre uma possível nova medida contra ele. Na sequência, afirmou ser importante “reforçar com Andrei e Paulo”.

A PF avaliou que os nomes “Andrei” e “Paulo” podem se referir, respectivamente, a Andrei Passos e Paulo Gonet. O uso da expressão “podem” é relevante: o próprio relatório não apresenta essa identificação como certeza absoluta.

A corporação também identificou outras mensagens e interações relacionadas aos nomes citados nas notas, mas ressalvou que a análise foi realizada em prazo de apenas 72 horas e, portanto, não teve caráter exaustivo.

INVESTIGAÇÃO AINDA ESTÁ EM ANDAMENTO

Nas considerações finais, a Polícia Federal afirma que as medidas cautelares analisadas estão relacionadas a duas hipóteses criminosas distintas, embora conexas.

A primeira envolve o suposto pagamento de vantagens indevidas a servidores do Banco Central. A segunda diz respeito à atuação do grupo denominado “Turma”.

Segundo a PF, as duas investigações estão em estágio avançado, mas ainda dependem da conclusão das análises bancárias e do exame de materiais apreendidos. As oitivas já começaram e tinham previsão de conclusão nos 60 dias seguintes à elaboração do documento.

O próprio relatório reforça que não é definitivo. Os investigadores afirmam que, devido ao prazo de 72 horas estabelecido para a análise, foram consideradas apenas as menções nominais diretamente identificadas, sem excluir a possibilidade de existirem outras referências ainda não detectadas.

UM CASO QUE ULTRAPASSA A ESFERA FINANCEIRA

O conteúdo do relatório amplia a dimensão política e institucional do caso Banco Master. O documento não se limita às suspeitas envolvendo operações financeiras: ele registra uma extensa rede de contatos mantidos por Vorcaro com autoridades, empresários, advogados e intermediários.

As mensagens, contratos e registros de encontros agora integram o material analisado pela Polícia Federal e levantam questões sobre a proximidade entre o banqueiro e pessoas com influência em diferentes estruturas do Estado.

Mas há uma distinção fundamental: o relatório documenta contatos, conversas, contratos e relações; ele não apresenta, nesta etapa, uma conclusão definitiva de que as autoridades mencionadas tenham cometido crimes.

A própria PF informa que não realizou, nesse documento, diligências específicas contra magistrados ou integrantes do Ministério Público e ressalta que a análise ainda poderá ser ampliada.

É justamente essa diferença que coloca o caso em uma dimensão institucional. A partir dos elementos já identificados, a questão central deixa de ser apenas quais operações financeiras foram realizadas pelo Banco Master e passa a envolver também a natureza das relações estabelecidas por seu controlador com integrantes de diferentes núcleos de poder.

O caso, portanto, permanece em investigação. E, enquanto novas análises e oitivas não forem concluídas, os registros apresentados pela Polícia Federal devem ser tratados como elementos de investigação — e não como prova definitiva de responsabilidade criminal das pessoas mencionadas.

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