O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, e o vice-presidente da Corte, André Mendonça, articulam uma desvinculação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a divulgação de uma carta em que o parlamentar contesta o resultado das eleições presidenciais de 2026. Considerados próximos ao campo bolsonarista, os dois ministros exibiram desconforto com a iniciativa, que reacendeu questionamentos sobre a legitimidade do processo eleitoral.
Em conversas com auxiliares, Kassio e Mendonça avaliaram que o senador perdeu o bom senso ao insistir na contestação do resultado das urnas. A manifestação ocorreu após Flávio divulgar, na quarta-feira (28), um documento em que se apresentou inicialmente como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Horas depois, o parlamentar alterou a expressão para “líder do Brasil”, mantendo as acusações contra o processo eleitoral.
A carta foi publicada depois da derrota de Flávio para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, realizado no domingo (25). No documento, o senador atribuiu a supostas irregularidades a diferença de votos entre os candidatos e questionou a decisão que prorrogou o horário de votação em duas horas. A medida também havia sido solicitada pelo próprio PL. Segundo dados do TSE, pouco mais de 34 mil eleitores votaram depois das 17h. Lula venceu a disputa por uma diferença superior a 4,4 milhões de votos.
Na noite de quarta-feira, Kassio divulgou uma manifestação pública em defesa da Justiça Eleitoral. Sem mencionar diretamente o senador, o presidente do TSE afirmou que a votação transcorreu “dentro da mais absoluta normalidade”, em respeito aos princípios legais e constitucionais.
O ministro também destacou o compromisso da instituição com a vontade soberana do eleitorado, que escolheu legitimamente seus representantes. Na mesma manifestação, informou que eventuais questionamentos apresentados pelos meios legais seriam analisados pela Corte.
A posição pública de Kassio acompanha a movimentação relatada nos bastidores do tribunal. Após a proclamação do resultado do segundo turno, o ministro já havia sinalizado a colegas que não daria andamento às reclamações apresentadas pela campanha de Flávio. Agora, pretende conversar com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, para alinhar a condução de eventuais iniciativas judiciais contra a validade das eleições.
A carta do senador e candidato derrotado à presidência chegou a circular com um brasão contendo a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. Durante a sessão plenária de quinta-feira (29), o tribunal manteve a programação habitual de julgamentos, sem manifestações públicas sobre o documento.
O distanciamento dos dois ministros ocorre em meio à reação de outros integrantes do grupo político que sustentou a candidatura de Flávio. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, afirmou que não há provas que permitam sustentar uma acusação de fraude eleitoral. O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Flávio ao longo do processo eleitoral, também defendeu o reconhecimento do resultado e afirmou que o caminho é respeitar a decisão das urnas.
Flávio Bolsonaro está nos Estados Unidos desde quarta-feira, quando deixou o Brasil acompanhado da mulher e das filhas. A viagem ocorreu após o segundo colado no pleito presidencial afirmar que permaneceria no país para liderar a oposição. A sequência de declarações e a divulgação da carta ampliaram o isolamento político do parlamentar, inclusive entre figuras que integraram sua campanha à presidência.
