A escalada das tensões no Oriente Médio, com foco nos desdobramentos envolvendo o Irã e os riscos à navegação no Estreito de Ormuz, tem elevado os preços internacionais do petróleo e ampliado a volatilidade no mercado global.
O estreito é responsável por parcela relevante do comércio mundial de petróleo e utilizado por grandes produtores da região, incluindo a Arábia Saudita, importante fornecedora para o mercado brasileiro.
Com as tensões, o produto voltou a operar acima de US$ 80 por barril nos últimos dias, refletindo a incorporação de prêmio de risco geopolítico nas cotações.
O movimento começa a produzir efeitos no Brasil, pressionando margens de refinarias e reabrindo discussões sobre a exportação de petróleo.
Entenda as recentes tensões no Oriente Médio
- Ações militares envolvendo os Estados Unidos e Israel contra alvos ligados ao Irã foram seguidas por ameaças de retaliação de Teerã, elevando o risco de confronto direto;
- O Estreito de Ormuz, principal rota de escoamento de petróleo do Golfo Pérsico, passou a operar sob maior tensão, com aumento do custo de fretes e seguros marítimos;
- A cotação internacional do petróleo subiu nos últimos dias, refletindo incertezas sobre oferta global e possíveis interrupções logísticas;
- A alta do petróleo pressiona expectativas de inflação, influencia mercados financeiros e pode afetar decisões de política monetária em economias importadoras de energia.
No Brasil, o impacto ocorre principalmente sobre o setor de refino. Apesar de o país figurar entre os principais produtores globais de petróleo, a capacidade de processamento doméstico não acompanha integralmente o volume extraído, mantendo a dependência de importações de derivados em determinados momentos.
Esse descompasso amplia a exposição do mercado interno às oscilações internacionais. Executivos do setor afirmam que a elevação do petróleo reduz as margens de refino, tradicionalmente estreitas, e aumenta a sensibilidade da política de preços.
Setor de petróleo no Brasil
Segundo o diretor de Novos Negócios da Refina Brasil, Associação Brasileira dos Refinadores Privados, Matheus Soares, em ambiente competitivo, as refinarias locais operam sob a lógica da paridade internacional, preços acima do mercado externo estimulam importações; preços abaixo comprimem a rentabilidade.
“Na medida em que eu não consigo praticar preços que sejam acima do que um fornecedor externo de combustível consegue vender no mercado brasileiro, ou seja, se eu começo aumentar o meu preço, eu perco espaço para o fornecedor externo, e se eu baixo muito o meu preço no Brasil, tendo que lidar com os altos custos de produção, eu estou sacrificando mais e no final do dia estou prejudicando o meu negócio”, disse.
O cenário também reacende o debate sobre o direcionamento do petróleo produzido no país. Com a valorização do barril no exterior, produtores tendem a priorizar exportações, movimento que pode limitar a oferta doméstica para refinarias independentes.
Representantes do setor defendem ajustes regulatórios que incentivem a industrialização do petróleo no mercado interno.
Matheus explica que o ideal é que as refinarias nacionais fossem abastecidas com petróleo nacional, priorizando o abastecimento doméstico não por meio do subsídio do combustível, mas da produção do petróleo.
“O que muda a realidade desse jogo é o preço do petróleo, é o que faz com que eu possa botar um combustível barato na praça para todos os consumidores brasileiros”, explicou ele.
O diretor disse, ainda, que existe uma pressão por mudanças regulatórias perante aos órgãos responsáveis para que seja possível reduzir os incentivos de exportação da matéria-prima não industrializada e estimular a industrialização do petróleo no Brasil.
Além dos impactos setoriais, a alta do petróleo é acompanhada com atenção por autoridades econômicas devido ao potencial efeito sobre inflação e expectativas de juros. Enquanto o conflito permanece sem definição clara, o mercado de petróleo segue operando sob maior incerteza, com reflexos diretos para produtores, refinarias e consumidores.
Para o especialistas, o que pode ser feito no momento para mitigar os efeitos da crise é olhar para origens alternativas aos fornecedores do Oriente Médio, com objetivo de eliminar riscos que, segundo ele, não são desconhecidos, mas que levando em consideração o sistema concorrencial do setor, pode causar impactos para as empresas e para a população como um todo.
“Não só por não só o petróleo, mas os derivados precisam ser importados e quando há quebra das cadeias de suprimentos logísticas, essa conta chega e geralmente ela não é barata”, disse.
