Embora o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia seja oficialmente assinado nesta quinta-feira, em Assunção, no Paraguai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva antecipou o protagonismo brasileiro ao se reunir, na véspera, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro. O encontro ocorreu no Palácio do Itamaraty e foi interpretado como um gesto político para reforçar o papel central do Brasil nas negociações, que se estenderam por mais de 25 anos.
A decisão de Lula de não participar da cerimônia no Paraguai também reflete um incômodo diplomático. Inicialmente, o país anfitrião havia convidado apenas chanceleres do Mercosul, mas alterou o formato para incluir chefes de Estado, mudança que desagradou o presidente brasileiro. O Brasil será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Já os presidentes do Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia confirmaram presença.
Ao receber Von der Leyen, Lula buscou reforçar que o Brasil foi o principal articulador do acordo, sobretudo em momentos em que países do bloco demonstraram resistência ou desinteresse. Segundo o presidente, a falta de consenso impediu que a assinatura ocorresse durante a presidência brasileira do Mercosul, encerrada em dezembro, além de ter sofrido sucessivos adiamentos por entraves impostos por países europeus, como França e Irlanda.
A ausência do presidente brasileiro também carrega críticas indiretas a parceiros regionais. Lula destacou, por exemplo, seu papel pessoal na reversão da posição da Itália, que foi decisiva para destravar o acordo no âmbito da União Europeia. Além disso, o presidente manifestou divergências políticas em relação à operação dos Estados Unidos na Venezuela, condenada pelo Brasil, mas apoiada ou relativizada por outros países da região.
Multilateralismo
Após a reunião, Lula e Von der Leyen fizeram um pronunciamento conjunto. O presidente brasileiro afirmou que o acordo representa uma defesa clara do multilateralismo e da democracia, em contraposição a discursos protecionistas. Ele ressaltou que o tratado trará benefícios econômicos, mais empregos e oportunidades, sem comprometer políticas públicas em áreas como saúde, inovação e agricultura familiar.
Lula também afirmou que o Brasil pretende ir além da exportação de commodities, destacando que o acordo prevê estímulos a investimentos europeus em setores industriais de maior valor agregado. Von der Leyen, por sua vez, elogiou o empenho pessoal do presidente brasileiro e afirmou que o tratado abrirá caminho para cooperação estratégica, especialmente em investimentos ligados a minerais críticos e à transição energética.
Salário mínimo, IA e apostas
Em outro compromisso no Rio de Janeiro, Lula afirmou que o salário mínimo no Brasil é “muito baixo” e que, desde sua criação em 1936, não cumpre plenamente a função de garantir direitos básicos aos trabalhadores. Atualmente fixado em R$ 1.621, o piso salarial, segundo o presidente, ainda está distante do objetivo original da legislação.
Lula também alertou para os riscos do uso da inteligência artificial, sobretudo em contextos eleitorais, citando a disseminação de imagens falsas e sexualizadas produzidas por ferramentas digitais. O presidente defendeu maior regulamentação para evitar abusos, inclusive envolvendo crianças.
Por fim, criticou as plataformas on-line de apostas, as chamadas bets, afirmando que elas ampliam problemas sociais e financeiros, além de influenciarem negativamente o esporte e a publicidade. Segundo Lula, o governo e o Banco Central atuam para garantir que essas empresas sejam devidamente fiscalizadas e tributadas no país.
